Perguntaram-me há dias se gosto da minha Língua. Aliás, a coisa foi formulada usando a negativa: “E então por que motivo não gostas do Português?” Isto é coisa que só se ouve expelida da boca de razoáveis militantes da causa diplomática e também a alguns doutos cidadãos, devotos ventilateurs dos commandements en mode da escuta activa e outras molezas, que descobriram na delicadeza um subterfúgio para escamotearem a sua forma pacificadora de estar na vida. Ora, eu não “amo a minha Língua”! Da mesma forma que não amo o meu nariz!
Eu nasci com o meu nariz!!! Foi-me imposto pelos nobilíssimos imperativos genético- mecânicos de ter um aparelho respiratório completo! Se eu amar o meu nariz (e é um bom e articulado nariz!) e o disser cantando a toda a gente, vou ter um problema com as invejas e féis de quem não assume o seu nariz e também, claro está, de quem já saiu do armário, assumiu ter um nariz e está perdidamente encantado/a pelo dito. Ora, se eu não tenho um problema de amor pelo nariz, estou seguro de não ter um problema de amor pela Língua.
Agora, eu sou um extremista, fiquem avisados o leitor, a leitora e a criancinha. Eu exijo, condição sine qua non, ao meu nariz que funcione senão não estou virado para ter uma vida assim incompleta.
Ora germinou em mim esta reflexão; este processo grandioso que só pode ser apresentado de forma grandiloquente e histriónica (à moda da dona Fátima Campos Ferreira e seu auscultador mágico): Portugal sim, mas mais, muito mais… XPTO! Sem isso, sem esse je ne sais quois, esse implante capilar de Norte a Sul, esse aumento de brio no seio de todos nós, esse movimento revelador de apinocação nacional, esse tunning contínuo da nossa máquina produtiva, sem tudo isso meus amigos e amigas… não há Fátima Campos Ferreira que nos valha, não há silêncio presidencial que traga desassossego, não há comediantes que nos desiludam, não há eleitores descontentes e indiferentes.
Outros fazem diferente, a maior parte faz melhor, quase todos são mais bem sucedidos. Nós temos um destino, um fado, uma falta de lógica com contornos de experiência alienígena em larga escala, uma capacidade irrepreensível de dar pequenos passos que não interessam à humanidade, de beber cerveja de segunda categoria (quando poderiamos facilmente beber vinho de teceira) até ao coma e ainda assim abraçar estranhos dizendo-lhes que são os maiores, de inverter a realidade e pagar gorjetas principescas aos nossos clientes alemães, de pôr almofadinhas nos assentos dos carros e de perdoar a quem não as põe. Nós somos espectaculares e merecemos um grande nariz que não amamos nem precisamos de amar, um Portugal mais como nós, um Portugal XPTO!
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